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Explorar novos interesses em qualquer idade

Introdução

A transição para a reforma representa um momento de profunda mudança na vida dos indivíduos. Libertando-se das obrigações profissionais, muitas pessoas enfrentam uma nova realidade marcada por maior disponibilidade de tempo, mas também por dúvidas quanto ao propósito, identidade e estrutura do quotidiano. Neste contexto, o desenvolvimento de novos interesses surge não apenas como uma ocupação útil, mas como um fator determinante para o bem-estar, a saúde mental e a integração social dos seniores.

Este artigo procura refletir, de forma fundamentada mas acessível, sobre as razões que justificam a exploração de novos interesses na fase da reforma, bem como apresentar estratégias práticas para que essa descoberta ocorra de forma motivadora, segura e gratificante.


1. A Reforma como Reconfiguração de Vida

Durante décadas, o trabalho tende a estruturar a vida das pessoas: organiza os dias, define relações sociais, confere estatuto e, muitas vezes, orienta os interesses pessoais. Com a cessação da atividade profissional, é comum que surjam sentimentos ambivalentes — alívio e liberdade, por um lado; incerteza, vazio ou até perda de identidade, por outro (Formosa, 2020).

A reforma não deve, por isso, ser encarada como um ponto final, mas como uma fase de reconfiguração de vida, marcada por novas possibilidades de aprendizagem, descoberta e envolvimento social. Os estudos em gerontologia mostram que os anos após a reforma podem ser dos mais produtivos e significativos, desde que a pessoa consiga encontrar um novo eixo de sentido para a sua vida (Carvalho & Nunes, 2016).


2. Porque Explorar Novos Interesses Após a Reforma?


2.1 Manutenção da Saúde Mental e Cognitiva

A estimulação intelectual está diretamente relacionada com a preservação da função cognitiva em idades avançadas. Atividades que implicam raciocínio, criatividade, resolução de problemas ou aquisição de novas competências podem atrasar o declínio cognitivo e reduzir o risco de demência (WHO, 2019). Aprender uma nova língua, iniciar um curso de história da arte ou explorar ferramentas digitais são exemplos de estímulos altamente benéficos.


2.2 Promoção do Bem-Estar Emocional

A descoberta e cultivo de novos interesses está associada ao aumento da autoestima, ao reforço do sentimento de utilidade e à construção de uma narrativa positiva de vida. Diversos estudos demonstram que os seniores que se envolvem em atividades significativas têm níveis mais elevados de satisfação com a vida e apresentam menor incidência de sintomas depressivos (Pinquart, 2002).


2.3 Reforço das Relações Sociais

A participação em grupos de interesse, clubes de leitura, aulas online ou presenciais é uma excelente forma de combater o isolamento social, um dos grandes riscos associados ao envelhecimento. A criação de novos vínculos sociais e o sentimento de pertença a uma comunidade são fundamentais para a saúde física e psicológica.


2.4 Redefinição da Identidade

Muitos reformados sentem uma perda de identidade quando deixam de exercer a sua profissão. Investir em novos interesses pode ser um caminho para reconstituir uma imagem de si mesmo assente noutras dimensões, como a criatividade, o conhecimento, a curiosidade, a solidariedade ou a sabedoria. A identidade é, afinal, um processo em constante reconstrução.


3. Como Explorar Novos Interesses? Estratégias Práticas


3.1 Olhar para Dentro: Identificar Vocações Adormecidas

Muitas pessoas vivem grande parte da vida com interesses "suspensos" por falta de tempo ou por exigências familiares e laborais. A reforma é o momento ideal para resgatar sonhos antigos: aprender a pintar, escrever um livro, estudar filosofia, tocar um instrumento, aprender informática ou fazer voluntariado. Um primeiro passo pode passar pela escrita de uma lista de desejos antigos ou áreas de curiosidade, sem julgamentos.


3.2 Experimentar Sem Pressão

A lógica do "tentar e errar" é essencial. Não é necessário escolher imediatamente uma grande paixão. Pode-se começar por experimentar uma aula de yoga, assistir a uma conferência, visitar uma exposição, fazer um curso online gratuito. O importante é permitir-se explorar sem medo de falhar ou de "não ter jeito".


3.3 Procurar Ambientes Acolhedores

As instituições que trabalham com seniores devem promover ambientes seguros, respeitadores da diversidade de experiências e ritmos. A participação num grupo onde se valoriza a escuta, o apoio mútuo e a partilha pode ser decisiva para a adesão e continuidade. Neste sentido, as academias sénior desempenham um papel central na inclusão social e educativa dos mais velhos.


3.4 Definir Rotinas Flexíveis

Ter horários e compromissos moderados ajuda a estruturar o dia e a manter a motivação. No entanto, a flexibilidade deve ser respeitada: é importante que as atividades escolhidas não se transformem numa nova fonte de pressão ou obrigação, mas sim num espaço de liberdade e prazer.


3.5 Celebrar Conquistas e Pequenos Progressos

Cada passo dado na direção de um novo interesse deve ser reconhecido: terminar um livro, participar numa exposição coletiva, escrever um poema, dominar uma funcionalidade do telemóvel ou fazer uma apresentação numa aula são conquistas que merecem celebração.


4. Barreiras e Medos Frequentes: Como Superá-los?

Apesar das inúmeras vantagens, muitas pessoas sentem-se inseguras ou desmotivadas para iniciar novos interesses. Algumas das barreiras mais comuns incluem:

  • Medo de não conseguir acompanhar (especialmente em áreas tecnológicas ou cognitivamente exigentes);

  • Vergonha de "não saber" ou de recomeçar do zero;

  • Dificuldades de mobilidade ou acesso;

  • Desvalorização da aprendizagem na idade sénior.

A superação destas barreiras exige trabalho conjunto entre os indivíduos, as famílias, as instituições e a sociedade. Promover uma cultura que valoriza o envelhecimento ativo e a aprendizagem ao longo da vida é um desafio coletivo.


5. O Papel da Educação Sénior

As academias sénior — como a Academia Sénior Online (ASO) — têm assumido um papel transformador, criando contextos educativos acessíveis, variados e motivadores. Ao combinar flexibilidade, qualidade pedagógica e sentido de comunidade, estas instituições permitem aos alunos reformulados:

  • Estudar temas diversos (línguas, arte, história, ciência, etc.);

  • Participar em projetos criativos e intergeracionais;

  • Desenvolver competências digitais;

  • Construir novas relações de amizade e apoio.

A experiência da ASO demonstra que a aprendizagem pode e deve continuar em qualquer idade, como motor de saúde, autonomia e felicidade.


Conclusão

Explorar novos interesses após a reforma é, mais do que uma possibilidade, uma necessidade vital. Ao investir em novas aprendizagens, os seniores reforçam a sua identidade, protegem a saúde mental, expandem o seu mundo social e dão continuidade ao seu percurso pessoal e intelectual.

A reforma, longe de ser um fim, pode ser um reinício fértil. O segredo está em manter viva a curiosidade, cultivar a coragem de experimentar e procurar contextos que valorizem o saber, a experiência e o desejo de crescer. Afinal, como bem dizia Cícero, “envelhecer é natural; envelhecer bem é uma arte”.


Referências (seleção simplificada)

  • Carvalho, A. & Nunes, P. (2016). Envelhecimento e aprendizagem: Perspetivas contemporâneas. Lisboa: ISCSP.

  • Formosa, M. (2020). Active Ageing and Later Life Learning. Springer.

  • Pinquart, M. (2002). “Correlates of subjective health in older adults: a meta-analysis.” Psychology and Aging, 17(2), 283–301.

  • WHO – World Health Organization (2019). Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines.


A construção deste texto baseou-se numa combinação de conhecimentos académicos da área da gerontologia, psicologia do envelhecimento e educação ao longo da vida, que fazem parte do meu corpus de treino, e em estratégias de escrita adaptadas à comunicação institucional — neste caso, pensando na missão da Academia Sénior Online (ASO).


Em termos concretos, este texto baseou-se em:


📚 Fontes académicas e conceitos estruturantes

  1. Gerontologia educativa — A ideia de que a aprendizagem ao longo da vida é essencial para o envelhecimento ativo, como defendido por autores como M. Formosa, Alan Walker (modelo de envelhecimento ativo da OMS), e estudos da UNESCO sobre lifelong learning.


  2. Psicologia do envelhecimento — O impacto da reforma na identidade, bem-estar e saúde mental, com base em autores como Paul Baltes (modelo de seleção, otimização e compensação), Erik Erikson (fase da integridade vs. desespero), e estudos de Pinquart & Sörensen sobre envelhecimento e satisfação de vida.


  3. Educação sénior em Portugal — A experiência prática e teórica das universidades e academias sénior em Portugal, que têm sido estudadas por instituições como o ICS-ULisboa e o ISCSP.



 

 
 
 

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